Símbolo de resistência negra inspira trabalho de identidade com mulheres da Unidade de Internação

Bonecas Abayomi serão produzidas durante oficina artesanal com as internas; proposta é retomar sentimento de pertencimento à sociedade

Técnica de tranças ou nós dos retalhos originários da saia das mães africanas acabou inspirando um trabalho de autorreconhecimento e valorização com as mulheres. Divulgação
Técnica de tranças ou nós dos retalhos originários da saia das mães africanas acabou inspirando um trabalho de autorreconhecimento e valorização com as mulheres. Divulgação

Foi nos espaços escuros e apertados dos tumbeiros – navios pequenos que realizavam o transporte de escravos entre a África e o Brasil – que as Abayomi surgiram pela primeira vez. Da necessidade de acalentar os filhos durante as viagens à sua consolidação enquanto símbolo de resistência dos povos negros, as bonecas traçaram ao longo deste período uma relação de fortalecimento da identidade afro-brasileira.

Hoje, centenas de anos depois, a técnica de tranças ou nós dos retalhos originários da saia das mães africanas acabou inspirando um trabalho de autorreconhecimento e valorização com as mulheres de Unidade de Internação Feminina do Estado. A proposta é simples: por meio de oficinas manuais provocar nas participantes o sentimento de pertencimento à sociedade, individual e coletivamente.

Em parceria com a Secretaria de Estado de Prevenção à Violência (Seprev), o Sebrae e o Instituto Raízes de Áfricas, o projeto reunirá pelo menos 20 jovens e adolescentes na produção de bonecas Abayomi. O significado do nome que em Iorubá, umas das maiores etnias do continente africano, quer dizer ‘encontro precioso’ transporta-se agora para uma realidade cheia de possibilidades e chances de um novo recomeço.

“A partir deste comparativo com a história das mães africanas, queremos retomar esse sentimento do ‘ser pessoa’ nestas jovens. A proposta é mais do que as atividades de oficina, queremos despertar a vontade de ir além deste cenário de privações, discutir resiliência e mostrar simbolicamente através da produção e comercialização dos produtos que é possível reinserir-se na sociedade”, pontua a coordenadora do Instituto Raízes de Áfricas, Arísia Barros.

Uma vez confeccionadas, os produtos serão ainda destinados para comercialização. A previsão é que a oficina tenha início na segunda semana de agosto.

Rafaela Pimentel – Agência Alagoas